Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

“De Quibala a Malele (Norte de Angola) – No Decorrer de Uma Guerra”

 

 
Como zona de guerra, são inúmeros os militares que mencionam o Quitexe nas suas recordações vertidas em livro. Falo hoje de um livro recentemente publicado “De Quibala a Malele (Norte de Angola) – No Decorrer de Uma Guerra” de Sérgio O. Sá, edição de autor.
 
Sérgio Sá inicia o livro com uma vasta introdução em que faz uma explanação das relações de Portugal com os povos colonizados. Surpreende a sua capacidade de síntese, o reportar de todos os pontos essenciais, remotos e próximos para a compreensão do eclodir da guerra. Encontro poucos livros de ex-militares com posições tão clarividentes quanto ao que estava em jogo nas colónias. A isto não é alheio a formação em história que viria a adquirir depois da guerra, mas também a sua “clandestina condição de objector de consciência”:
 
“Eu não partira para matar ninguém, mas para tentar salvar quem viesse a necessitar dos meus cuidados de socorrista, fosse soldado das hostes portuguesas, fosse da guerrilha, mesmo que nesse caso se tratasse, de facto ou por convenção de inimigo. (…) Amigo dos guerrilheiros, sim, por ideal. Guerrilheiros e não “turras”, como lhes chamavam, certamente para lhes usurpar, mesmo que não de má fé, a dignidade de pessoas e de combatentes com estatuto equiparado tanto na missão quanto na submissão, ao que quem assim os infamava. Amigo dos guerrilheiros (…) porque os considerava tão vítimas como eu, tendo, além disso, de admitir que a razão que lhes assistia fazia sentido e era justificada pela própria História”. 
 
A sua rejeição da guerra deixou-a bem expressa em alguns poemas:
 
          Um Soldado à Deriva
 
      Nesta terra envermelhada
      Pelo sangue de tanta gente
      Anda esta vida obrigada
      A ver a morte de frente.
 
      Segue trilhos e pegadas
      Entre o capim, no sertão
      Desta terra deserdada,
      Leva uma arma na mão.
 
      Mata inocentes que lutam
      Pela sua liberdade.
      Um herói passa a ser…
 
      E entre aqueles que disputam
      As honras da crueldade
      Só mata p’ra não morrer.
 
     Maio de 1967
 
 
A sua passagem pelo Quitexe está, no entanto toldada pelas brumas da memória. No capítulo “Regresso a Quibala pela estrada do Quitexe” refere-se aos perigos reais e imaginários que afligiam quem nela circulava e ao susto que aí sofreu, mas não recorda a passagem pelo Quitexe:
“As horas e os quilómetros foram passando, devagar porque o camião ia carregado de mercadoria. Vista Alegre, antiga Quifuafa, tinha entretanto ficado para trás e por volta das 17.30 horas chegámos a Aldeia Viçosa (…). Cedo demais, portanto, para ficarmos por ali. (…) Daí que talvez não tivéssemos passado de Quitexe onde provavelmente pernoitámos”.
 
Dedicado a todos os militares de Batalhão de Caçadores 1867, em geral, e em particular aos da Companhia de Caçadores 1463, esta obra, que envolve um nítido cariz autobiográfico, é fundamental para a compreensão das angústias, dos medos e contrariedades que originavam estados depressivos em que mergulhavam muitos dos nossos jovens combatentes.
 
 
 
Sérgio de Oliveira e Sá nasceu em 1943. Por força das múltiplas dificuldades em que cresceu teve que ir trabalhar com 13 anos de idade, vindo a exercer, ao longo do tempo, diversas actividades, incluindo de carpinteiro, na construção civil e a de docente no ensino público oficial. Músico autodidacta participou em vários conjuntos e compôs diversas músicas.
 
Tinha já 25 anos quando, após regressar de Angola – onde fora obrigado a prestar serviço militar integrado nas fileiras do exército português de 1965 a 68 – teve oportunidade de iniciar os estudos liceais. Deu-lhe continuidade e, sempre como estudante trabalhador, seguiu depois estudos superiores. Em 1982 concluiu licenciatura em Artes Plásticas e, mais tarde, mestrado em História da Arte. Cedo se interessou por questões inerentes ao Património Natural e Cultural, tendo desenvolvido algum trabalho de investigação e divulgação em prol da sua salvaguarda.
 
Como artista plástico, desde 1970, então autodidacta, que vem apresentando ao público os seus trabalhos, sendo esta a sua 50.ª exposição individual. Em mostras colectivas conta com mais de duas centenas e meia de participações.
 
Obras do autor:
 
DO BANCO DO JARDIM (Poemas) Edição de Autor -1977
 
PALAVRAS ( Poesia) Edição de Autor -1978
 
MEMÓRIAS DE UMA ALDEIA (Cidadelha), Sólivros de Portugal – 1990
 
ALMINHAS DO CONCELHO DA MAIA, Câmara Municipal da Maia – 1998
 
SANTEIROS DA MAIA, Edição de Autor -2002
 
LARGADA DE POMBOS BRAVOS (Ensaio), Edição de Autor -2003
 
ONDE APANHEI ESTES VERSOS – “Poemas” no Alentejo, Edição de Autor -2006
 
ASPECTOS DECORATIVOS Nos portais das Casas de Lavoura da Antiga Terra da Maia, Edição de Autor -2007
 
DE PASSAGEM (Conto verídico), Câmara Municipal da Guarda – 2007
 
VERSOS NA GUERRA – VERSOS DE PAZ, Edição de Autor -2008
publicado por Quimbanze às 20:15

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