Domingo, 17 de Junho de 2007

NAMBUANGONGO

NAMBUANGONGO - Miranda, João Bernardo - Publicações Dom Quixote-1998

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    Obra literária que podemos classificar como romance histórico ou, com diz o autor: “Nambuangongo” não é uma obra literária na acepção clássica do termo nem pretende ser um livro de história. Tenta apenas interpretar um passado recente através de uma simbiose de palavras entre ficção realidade.

Neste romance vivido na região dos Dembos é relatada a luta pela independência desde os tempos do 4 de Fevereiro de 61, até aos nossos dias, abarcando o 15 de Março e, também, as contradições das opções racistas da UPA e, em especial a directiva “mona-wa-ionka, ionka uê”-  filho de cobra também é cobra, que levou à matança de muitas crianças mestiças:

 

“ – Como sabes Massanga, a guerra contra os brancos já começou. Em Kibaxe, lá nos Ndembos, em Nambuangongo, no Kitexi e em muitos sítios aí em cima, mataram todos os brancos. Outros fugiram para Luanda. O Mbuta Muntu, o grande chefe que está a dirigir tudo isso, mandou também matar todos os filhos dos brancos com pretas. Por isso é que o teu tio Pianga devia matar-te. A ordem de Mbuta Muntu diz que os filhos dos brancos com pretas devem ser mortos pelos seus tios. (…)

 

Depois o revogar desta directiva:

 

“ O nosso querido chefe supremo Tata Holden determina para que doravante jamais se molestem os mestiços nem os assimilados. Os mestiços são nossos sobrinhos, são nossos filhos. Os assimilados são nossos irmãos. O nosso querido chefe supremo nunca ordenou que se matassem os nossos sobrinhos. Nunca mandou prender ou matar os nossos irmãos assimilados. Tudo o que aconteceu foi obra dos delegados, traidores da pátria.”

 

Entretanto dá-se a implantação do MPLA na zona com a criação da 1ª Região Politico-militar e a descrição das extremas dificuldades de 13 anos de vida nas matas, acossados pelas tropas portuguesas e impedidos, pela acção da FNLA, de receberem mantimentos e reforços.

Surge, então o 25 de Abril de 74 e, com ele, a Independência e a 2ª guerra de libertação nacional, agora contra a FNLA, os Zairenses e os Sul Africanos. Mas foi esta guerra, muito mais abrangente e terrífica, pelos meios bélicos utilizados, que acaba por subalternizar os heróis libertadores da 1ª guerra. Nesta 2ª guerra assumiram papel de relevo os antigos oficiais e sub-oficiais angolanos do antigo exército português que colocaram o seu saber e capacidade combativa a favor da pátria. Para muitos bastou, depois a passagem pelas academias de Moscovo e outros “países amigos” para serem graduados em generais famosos.

O descrédito no avanço da revolução tomou conta dos antigos heróis que sentiam a necessidade de "derrubar o muro erguido pela pequena burguesia oportunista em torno do camarada Presidente, que o impediam de se aperceber das queixas e lamentações do povo". É o 27 de Maio de 77 e a terrível repressão que se seguiu, que afectou de sobremaneira os heróis da 1ª Região Politico-militar.

 

“ Enquanto isso, o comboio da revolução foi rasgando a densa nuvem preta que ensombrou o país. Prosseguiu a sua marcha que se julgava inexorável. Anos depois do trajecto o comboio parou por avaria num apeadeiro, e todos os ocupantes saídos incólumes de temporal de Maio desertaram-no. Apanharam um outro que vinha em sentido contrário, do Planeta Nova Era:

- Estão a dizer que cabemos neste comboio?!

- Sim, meu filho, neste, aqui, cabemos todos…

- Mas todos quem?

- Todos nós, os filhos desta terra que se chama Angola.

- Também os lacaios do imperialismo ou fantoches, os fraccionistas, etc…viajarão connosco?

- Meu filho, eu já não me lembrava desses epítetos. Olhe para os meus cabelos brancos. Eu já vivi tanta coisa desde que começamos. Por tudo quanto já passamos o melhor é amnistiarmo-nos mutuamente. Esquecer…”

 

 

 

João Bernardo de Miranda nasceu em Caxiti-Dande em 1952. Jornalista e licenciado em direito. Membro do Comité Central do MPLA ocupou vários cargos governamentais e é, actualmente, Ministro das Relações Exteriores de Angola.

 

publicado por Quimbanze às 17:26

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Dia Kassembe – Os amores das Sanzalas

Dia Kassembe – Os amores das Sanzalas – Les bons tours de Cupidon

 

Livro publicado em França por Editions Cultures Croisées

 

Várias crónicas que nos dão conta das relações e dos amores entre brancos colonizadores e mulheres indígenas relegadas, a maior parte das vezes, ao estatuto de servas domésticas e sexuais. É num estilo vigoroso, descontraído e límpido que esta autora descreve as aventuras que enfrentam eles e elas que tentam ultrapassar a “barreira da cor”, apesar das leis e preconceitos do sistema colonial, a pressão do grupo familiar ou do clã que fazem da fractura étnica uma fronteira a não desrespeitar nas relações amorosas e/ou sexuais.

Estes amores, raramente duráveis, confrontam-se com os obstáculos de uma sociedade colonial onde a relação sexual e amorosa é pervertida pela relação de patrão branco e criada negra. Donde a ambivalência desta em relação ao seu amante português, mesmo quando, graças a esta ligação, ela espera emancipar-se do seu estatuto de escrava doméstica e sexual do patrão. Esta ambivalência é bem descrita no primeiro relato – Os Insubmissos do Quitexe – onde Joana, uma jovem violada e amada pelo seu patrão de quem espera um filho, aspira, graças a esta união, a saída se uma situação de dependência. Episódio passado no Quitexe , nos anos 60, no seio da família Ataíde, que, quem lá viveu dirá que algumas semelhanças com pessoas e factos não são pura coincidência.

Mas a relação dominante/dominado que vicia a relação amorosa não explica tudo. Paralelamente ao sistema colonial pré-existe, com efeito, o sistema de dominação masculina. Neste sistema, as mulheres quer sejam brancas ou negras, estão acorrentadas a uma relação hierárquica que as submete à dominação dos homens em geral, e particularmente à dos seus maridos. Os portugueses colonizadores, como os africanos servos vivem, na época destas crónicas, num mundo não somente colonial, mas também alicerçado nas estruturas de dominação masculina onde os homens brancos ou negros, se assemelham, estranhamente, no desdém pelas suas esposas.

 

Traduzido e adaptado do prefácio de Andrée Michel , Director honorário de pesquisas no CNRS (Paris)

 

 

Pessoalmente, achei muito interessante a exploração do tema das relações e dos amores entre brancos colonizadores e mulheres indígenas que, sendo por demais recorrente nas relações colonizador/ colonizado, é pouco abordado, talvez por algum incómodo pessoal que ainda gera.

 Interessante, também, a colagem de histórias e personagens reais, com outras ficcionadas que a autora faz, em torno destes amores. A família Ataíde, a Joana (seria Ana, na realidade?) e Maria Kapita ( a Josefa do livro).

Importante é, também, a homenagem que a autora presta ao Dr. Videira, trazendo-o para o enredo sua história.

Como não poderia deixar de ser, é a visão Angolana da história, em contraponto ao discurso oficial do regime colonial que abordaremos a propósito de outros livros:

 

“ Cada branco tem com ele tudo o que precisa para se defender do negro, depois da sublevação do 15 de Março de 61. Quitexe é a região que pagou mais caro esta revolta, estando, alguns colonos, à cabeça desta carnificina. Muitos negros foram, por eles, mortos e torturados de Março de 1961 a Abril de 1962. No centro da vila, nenhum negro podia circular se não para as necessidades do seu contracto de trabalho. Nenhum negro tem o direito de olhar com insistência o domicílio de um branco ou mirar o próprio branco muito tempo. Estes gestos custam a vida ao seu autor. Cada colono faz de miliciano em frente da sua porta e atira sobre tudo que é negro e mexe.” (Pág. 21 - Tradução livre)

 

João Luís Garcia

 

 

Índice

1- L'Insoumis de Quitexe , p.12
2- Le Mystère du Lac Kifuche , p.40
3- Sogolobinga Cendrillon était une Noire ), p.66
4- Sumba , l'aristocrate , p.88
5- Tukumuka , p.108

Um poema da autora precede cada conto

 

Dia Kassembe , pseudónimo de Amélia Benghy

Nascida em Angola em 1946. Filha de Banda de Kassembe ( Kassembe está situado entre Dondo e Amboim, na província de Quanza Sul). Durante a época colonial escreveu diversos artigos, poemas e crónicas nos jornais da época (Província da Angola, Revista de Angola, O Lobito) sob diversos pseudónimos: Ivi, Liana, AFC ...

Refugiada em França desde 1980, regressou recentemente a Angola. Todos os seus livros são escritos em francês:

 

Os Amores das Sanzalas : Les bons tours de Cupidon . Roissy en -Brie : Editions Cultures Croisées , 2004. 115p .). ISBN 2-913059-15-5. Récits . Préface d Andrée Michel ].

 

Thsiala l'enracinée : Du Kuanza à la Seine . Roissy en " la Seine . Roissy en -Brie, 2001 Editions Cultures Croisées

 

Soigner en Noir et Blanc . Paris: l'Harmattan , 2001.

 

Femmes sacrées , insoumises , rebelles . Paris: l'Harmattan , 1998.

L'Angola , vingt ans de guerre civile ; une femme accuse. Paris: l'Harmattan , 1995

publicado por Quimbanze às 17:06

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