Domingo, 25 de Abril de 2010

Pedro Francisco Massano de Amorim - Marquez do Lavradio

 

Marquês do Lavradio - “Pedro Francisco Massano de Amorim”, Colecção Pelo Império n.º 73, Agência Geral das Colónias, 1941

 

Neste pequeno livro, o Marquês do Lavradio traça o perfil e o percurso de Pedro Francisco Massano de Amorim que durante mais de 30 anos exerceu a sua actividade nas colónias portuguesas. Desde 1896, quando desembarcou pela primeira vez em Moçambique, até Maio de 1929, quando morre na Índia, como  Governador Geral, passando várias vezes por Angola, ora em comissões administrativas, ora em missões militares, o seu nome ficará ligado à história da ocupação de Angola e Moçambique.

 

A sua importância para o Quitexe advem do facto de ter sido no seu governo geral que foi fundado o posto militar do Quitexe pelo Major Djalme de Azevedo e tê-lo deixado atestado em relatório.

 

Neste relatório, datado de 13 de Abril de 1917 e publicado neste livro, Massamo de Amorim, que fora nomeado Governador Geral de Angola em 29 de Janeiro de 1916, dá-nos conta da situação da colónia nos seguintes termos:

 

 

 “Os trabalhos de ocupação, nos últimos 10 meses, pelos Governadores dos Distritos, com o pessoal sob as suas ordens, minguado em número, mas cheio de dedicações, boa vontade e energia, determinou (…) a conquista de territórios que já agora podemos considerar, com verdade, subordinados à nossa autoridade. Diremos em resumo a este respeito:

 

(…) No Cuanza o Governador Djalme de Azevedo, com uma persistência grande, apenas comparável à sua serenidade, consegue em trabalhos sucessivos de duas colunas, que organizou no grande e pequeno Cacimbo e acompanhou, romper primeiramente o território que lhe ficava entre Lucala e o Ambuíla chegando até ao Encoge, deixando à retaguarda o posto de Quissaque (17 de Março de 1917) e depois, numa segunda fase das operações militares, montar o posto de Quiteche e internar-se já a Norte e a Sul em território dos Dembos (…)”.

 

 

Massano de Amorim chega em Abril de 1916 a Luanda. No ano seguinte, em Maio de 1917, a região de Seles e Angoche revolta-se.

 O seu relatório faz-nos lembrar outras revoltas 44 anos depois. É que «os esbulhos, as perseguições, as prepotências e injustiças praticadas pelos agricultores e comerciantes estabelecidos na região» levam as populações autóctones a tal actuação. Para o governador, as razões são várias: «detenção dos indígenas, imposição de trabalho forçado fora dos termos legais, falta de pagamento de salários, incêndios às cubatas, transgressão do regulamento do trabalho indígena, roubos de propriedades ... a par da desobediência à autoridade, do contrabando de pólvora e armas vendidas ao gentio. (...) Entre todos figura em primeiro plano o esbulho de plantações de palmares por muitos processos diferentes, e é, sem dúvida, este esbulho a razão principal do descontentamento".

 

O modo de actuação também será repetido 44 anos depois:

 

"Não resta dúvida que esta revolta foi planeada com antecipação e que antes de rebentar tinham sido enviados emissários a vários pontos para  conseguir adeptos e auxiliares foi, e tudo tratado com tanto segredo que autoridades, comerciantes e agricultores são unânimes em afirmar que nada tinha transparecido até às primeiras hostilidades contra os europeus.”

publicado por Quimbanze às 22:48

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Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

“De Quibala a Malele (Norte de Angola) – No Decorrer de Uma Guerra”

 

 
Como zona de guerra, são inúmeros os militares que mencionam o Quitexe nas suas recordações vertidas em livro. Falo hoje de um livro recentemente publicado “De Quibala a Malele (Norte de Angola) – No Decorrer de Uma Guerra” de Sérgio O. Sá, edição de autor.
 
Sérgio Sá inicia o livro com uma vasta introdução em que faz uma explanação das relações de Portugal com os povos colonizados. Surpreende a sua capacidade de síntese, o reportar de todos os pontos essenciais, remotos e próximos para a compreensão do eclodir da guerra. Encontro poucos livros de ex-militares com posições tão clarividentes quanto ao que estava em jogo nas colónias. A isto não é alheio a formação em história que viria a adquirir depois da guerra, mas também a sua “clandestina condição de objector de consciência”:
 
“Eu não partira para matar ninguém, mas para tentar salvar quem viesse a necessitar dos meus cuidados de socorrista, fosse soldado das hostes portuguesas, fosse da guerrilha, mesmo que nesse caso se tratasse, de facto ou por convenção de inimigo. (…) Amigo dos guerrilheiros, sim, por ideal. Guerrilheiros e não “turras”, como lhes chamavam, certamente para lhes usurpar, mesmo que não de má fé, a dignidade de pessoas e de combatentes com estatuto equiparado tanto na missão quanto na submissão, ao que quem assim os infamava. Amigo dos guerrilheiros (…) porque os considerava tão vítimas como eu, tendo, além disso, de admitir que a razão que lhes assistia fazia sentido e era justificada pela própria História”. 
 
A sua rejeição da guerra deixou-a bem expressa em alguns poemas:
 
          Um Soldado à Deriva
 
      Nesta terra envermelhada
      Pelo sangue de tanta gente
      Anda esta vida obrigada
      A ver a morte de frente.
 
      Segue trilhos e pegadas
      Entre o capim, no sertão
      Desta terra deserdada,
      Leva uma arma na mão.
 
      Mata inocentes que lutam
      Pela sua liberdade.
      Um herói passa a ser…
 
      E entre aqueles que disputam
      As honras da crueldade
      Só mata p’ra não morrer.
 
     Maio de 1967
 
 
A sua passagem pelo Quitexe está, no entanto toldada pelas brumas da memória. No capítulo “Regresso a Quibala pela estrada do Quitexe” refere-se aos perigos reais e imaginários que afligiam quem nela circulava e ao susto que aí sofreu, mas não recorda a passagem pelo Quitexe:
“As horas e os quilómetros foram passando, devagar porque o camião ia carregado de mercadoria. Vista Alegre, antiga Quifuafa, tinha entretanto ficado para trás e por volta das 17.30 horas chegámos a Aldeia Viçosa (…). Cedo demais, portanto, para ficarmos por ali. (…) Daí que talvez não tivéssemos passado de Quitexe onde provavelmente pernoitámos”.
 
Dedicado a todos os militares de Batalhão de Caçadores 1867, em geral, e em particular aos da Companhia de Caçadores 1463, esta obra, que envolve um nítido cariz autobiográfico, é fundamental para a compreensão das angústias, dos medos e contrariedades que originavam estados depressivos em que mergulhavam muitos dos nossos jovens combatentes.
 
 
 
Sérgio de Oliveira e Sá nasceu em 1943. Por força das múltiplas dificuldades em que cresceu teve que ir trabalhar com 13 anos de idade, vindo a exercer, ao longo do tempo, diversas actividades, incluindo de carpinteiro, na construção civil e a de docente no ensino público oficial. Músico autodidacta participou em vários conjuntos e compôs diversas músicas.
 
Tinha já 25 anos quando, após regressar de Angola – onde fora obrigado a prestar serviço militar integrado nas fileiras do exército português de 1965 a 68 – teve oportunidade de iniciar os estudos liceais. Deu-lhe continuidade e, sempre como estudante trabalhador, seguiu depois estudos superiores. Em 1982 concluiu licenciatura em Artes Plásticas e, mais tarde, mestrado em História da Arte. Cedo se interessou por questões inerentes ao Património Natural e Cultural, tendo desenvolvido algum trabalho de investigação e divulgação em prol da sua salvaguarda.
 
Como artista plástico, desde 1970, então autodidacta, que vem apresentando ao público os seus trabalhos, sendo esta a sua 50.ª exposição individual. Em mostras colectivas conta com mais de duas centenas e meia de participações.
 
Obras do autor:
 
DO BANCO DO JARDIM (Poemas) Edição de Autor -1977
 
PALAVRAS ( Poesia) Edição de Autor -1978
 
MEMÓRIAS DE UMA ALDEIA (Cidadelha), Sólivros de Portugal – 1990
 
ALMINHAS DO CONCELHO DA MAIA, Câmara Municipal da Maia – 1998
 
SANTEIROS DA MAIA, Edição de Autor -2002
 
LARGADA DE POMBOS BRAVOS (Ensaio), Edição de Autor -2003
 
ONDE APANHEI ESTES VERSOS – “Poemas” no Alentejo, Edição de Autor -2006
 
ASPECTOS DECORATIVOS Nos portais das Casas de Lavoura da Antiga Terra da Maia, Edição de Autor -2007
 
DE PASSAGEM (Conto verídico), Câmara Municipal da Guarda – 2007
 
VERSOS NA GUERRA – VERSOS DE PAZ, Edição de Autor -2008
publicado por Quimbanze às 20:15

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Sábado, 6 de Dezembro de 2008

Angola - O Jardim dos Anjos V - Manuel Correia

 

Trata-se de um conto de Manuel Correia pseudónio de um Luso/Angolano de Benguela, vivendo em Luanda, não publicado em livro, mas num sítio de literatura – Recanto das Letras
 
 
Um conto que tem o Quitexe como fundo, diamantes e ex-colonos. Com algumas imprecisões históricas e geográficas, desculpáveis a um benguelense, o autor tece uma história com “suspense” que mantém o leitor atento até ao final do texto.
 
As recordações do antigamente:
 
"Todo o salão parou para ouvir aquela senhora de 77 anos bem estimados.
Sem tirar os olhos do espelho, prosseguiu:
-Em 1974, eu vivia em Angola, na província do Uíge, numa vila simpática chamada Quitexe."(...)
 
E a actualidade:
 
"Quando chegaram à pequena vila de Quitexe, o administrador suava de entusiasmo.
-Claro que vos ajudo. Sempre pensamos que ninguém mais se lembraria de Quitexe. Precisamos de toda a ajuda possível."
 
Para ler tudo:
 
http://recantodasletras.uol.com.br/contoscotidianos/1320470
 
 
publicado por Quimbanze às 18:47

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Terça-feira, 4 de Março de 2008

ANGOLA (Do Meu Bornal de Recordações) - Martins, Manuel Alfredo de Morais-Editora Internacional 1998

Este livro é um acervo de memórias de um homem que percorreu a carreira de funcionário administrativo nas terras de Angola. Diplomado pela Escola Superior Colonial começa a sua vida profissional em 1945 como secretário da circunscrição da Damba no, então, Congo Português. Vai subindo na carreira administrativa até ocupar as funções de Inspector Superior e de Secretário-geral do Governo de Angola.

 

Na sua primeira viagem de Luanda para o local de trabalho, atravessando o Distrito de Cuanza Norte (ao qual pertencia, na altura, o Posto do Quitexe) recorda o trocadilho que corria em Angola sobre o nome deste distrito, caracterizado por péssimas condições de clima e salubridade onde imperava o paludismo e as febres biliosas: Dizia-se que o Distrito de Cuanza Morte tinha a sua sede na vila de Ndalamatando

 

Os oito anos que passou no Congo, mais dois no Distrito de Mossâmedes e dois no Concelho de Malange permitem-lhe uma descrição muito interessante quer das relações entre as autoridades coloniais e as comunidades locais quer de discrição de aspectos etnográficos, ritos e costumes das populações.

 

Um dos aspectos mais interessantes é a relação do nativo com a terra, a noção de propriedade:

“ Existiam dois tipos de propriedade: a colectiva e a individual. O solo nunca era susceptível de ser apropriado individualmente. Era propriedade da Kanda (clã matrilinear) ou, melhor dizendo, dos seus ramos, designados por ngudi, mas não dos seus membros vivos.

A verdadeira posse pertencia aos antepassados que conquistaram o solo em que os seus descendentes estavam estabelecidos, e estes apenas detinham o usufruto. Havia uma ligação íntima entre a Kanda e o território por ela ocupado, e o conjunto era dominado pelo poder dos antepassados. Isto dava ao solo um carácter quase sagrado e foi problema que sempre muito me preocupou, pela ligação que tinha com a concessão de terras a europeus.

O usufruto da terra por meio da agricultura e o aproveitamento dos produtos espontâneos, da caça e da pesca, pertenciam a cada uma das kandas, havendo subdivisões interessando às diversas famílias extensas. Os respectivos limites eram fixados de acordo com os chefes de aldeia.

De qualquer maneira, o solo propriamente dito não era propriedade perfeita de qualquer comunidade e muito menos dos indivíduos. Só as culturas e as árvores plantadas ou tratadas constituíam propriedade individual, podendo ser negociadas e transmitidas por herança.”

        Pintura de Albano Neves e Sousa

Outro aspecto, que não deixa de salientar, era o abuso da utilização de trabalho forçado que provocara na Damba e em todos os outros concelhos das regiões fronteiriças, um êxodo enorme para o então Congo Belga. Basta indicar que o número de contribuintes existentes em 1934, que era de 9900, baixou, em 1943, para 2823. “Embora houvesse orientações claras e determinadas pelos responsáveis máximos da colónia quanto à necessidade da imposição desse recrutamento forçado de trabalhadores, ao arrepio da lei e das consciências, também não há dúvida que alguns funcionários administrativos, esquecendo-se da grandeza do seu múnus, se deixavam vencer por uma concepção materialista da vida e desonravam o quadro a que pertenciam, afastando-se da ética que devia orientar o seu procedimento.”

 

De facto, embora no início do livro, enalteça a acção dos agentes das autoridades administrativas, não deixa de, ao longo do livro, levantar o véu sobre os abusos e despotismo que caracterizavam a acção de alguns dos seus colegas.

 

 Genuinamente interessado no bem-estar e promoção das populações locais, apercebe-se do erro da imposição forçada dos nossos padrões culturais, optando pelo estabelecimento de um clima permanente de concórdia e respeito mútuo que muito facilitou a sua acção. Curiosamente, no entanto, nunca menciona os castigos corporais, que se sabe, era prática corrente da Administração Portuguesa.

 

A descrição das condições precárias de vida a que estavam sujeitos os sertanejos e as suas famílias, isoladas, distantes de qualquer centro desenvolvido e desprovidos de elementares meios de assistência médica e hospitalar é, sem dúvida motivo para explicar o apego e saudade destes colonos às terras que ajudaram a desenvolver.

 

Da sua passagem por Malange recorda os atropelos à lei que não permitiam sequer que os “assimilados” fossem como tal reconhecidos; o contacto com um novo grupo que caracteriza como “destribalizados”: “os jovens nascidos em aldeias mais ou menos distantes e fixados na cidade, já desenraizados dos padrões em que tinham sido enculturados, e aqueles, novos e velhos, pertencentes a famílias que já há muitas gerações se sentiam integrados na cultura portuguesa e que, a partir de certa altura passaram a ser marginalizados pelos brancos que começaram a afluir em maior número e a temer a concorrência dos negros com nível de instrução superior ao seu. E foram estes marginalizados quem, mais tarde veio a engrossar as hostes do MPLA. No sinistro período que em 1961 ensanguentou Angola, não houve em Malange nenhum desmando assinalável. Se terrorismo existiu, foi da parte de alguns elementos da PIDE e de um alferes que bem triste rasto ali deixaram.”

 

“Em Malange, perante a marginalização que os negros aculturados ali estavam a sofrer e que era corrente em quase todo o território da colónia, foram-se avolumando as dúvidas, que já antes tinham despontado em mim, sobre a continuidade da presença portuguesa em Angola.”

 

Depois de 61 é nomeado Seretário-Geral de Angola pelo Ministro Adriano Moreira e aí se manteve com os governadores-gerais Venâncio Deslandes e Silvino Silvério Marques.

 Visita ao Quitexe

 

 

Num dos aniversários do começo da rebelião, mais precisamente em 15 de Março de 1965, acompanha o Governador-Geral em visita a Carmona (Uíge) e ao Quitexe, que tinha sido uma das povoações mais sacrificadas.

 

 

 Manuel Alfredo de Morais Martins nasceu em 1918 na cidade de Castelo Branco. Diplomado pela antiga Escola Superior Colonial (1939), licenciou-se em Ciências Sociais e Política Ultramarina(1958). Com o doutoramento em Ciências Sociais - ramo de Antropologia Cultural no ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa (1986) foi docente de várias cadeiras na área das Ciências Sociais.

Exerceu funções no Quadro Administrativo de Angola (1945-1960) e foi membro do Governo como Secretário-Geral (1962-1967), além de Inspector Superior da Administração Ultramarina.

Do autor:

 

Contacto de Culturas no Congo Português - Achegas para o seu estudo -1958

 

A influência do português no Quicongo - 1958

 

As migrações de indígenas no ultramar português - 1958

 

O mel na medicina popular - 1986

 

Malpica do Tejo. Terra pobre, povo nobre - 1986

 

A história de um sobado de Malange. Um caso de cooperação luso-angolana no séc.XIX - 1995

publicado por Quimbanze às 22:40

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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Catalogo dos governadores do Reino de Angola

Encontrei no Google a cópia digitalizada de um livro publicado em 1826 pela Academia Real das Ciências que faz parte de uma colecção intitulada "Noticias para a historia das nações ultramarinas que vivem nos dominios portuguezes, ou lhes são visinhas."

 

A parte II do tomo III refere-se ao " Catalogo dos governadores do Reino de Angola. Com huma previa noticia do principio da sua conquista, e do que nella obrarão os governadores dignos de memória."

Neste livro vão sendo mencionados todos os governadores de Angola desde Paulo Dias de Novais, em 1574, até ao ano de 1784.

 

Foi aqui que descobri a mais antiga referência ao Quitexe que vi, até hoje, publicada. Mais precisamente  a referência ao dembo Quitexe ao descrever o mandato do governador António de Vasconcelos. Segue-se a transcrição do texto em que mantivemos a grafia original.

Catálogo dos Governadores do Reino de Angola

 

 

Antonio de Vasconcellos

 

 

Antonio de Vasconcellos saltou em terra na noite de 4 de Outubro de 1758, e tomou posse em 14 do dito mez, governando cinco annos, sete mezes, e vinte e hum dias. No primeiro conquistou a celebrada pedra de Encoge situada entre os dous poderos«zos dembos Ambuilla, e Ambuella, sem que algum delles disputasse a posse, e formando-se o novo prezidio se lhe deu o nome de S. Jozé do Encoge. Foi cabo desta expedição Francisco Manoel de Lira tenente de granadeiros, que lhe deo a primeira forma. He a tal pedra huma prodigioza obra da natureza, e dentro do seu recinto pode receber hum grande exercito. He também útil a sua posse ao nosso commercio pelo concurso e frequência das nações circunvizinhas, sebem o clima he o mais enfermo de todo este sertão. Fez outra expedição contra Quindalla Quisongo sova do Libollo, a quem Jozé dos Santos capitão da artilharia do prézidio de Cambambe abrazou a banza, e libatas e cativou muita gente; pondo outro sova no estado, e pagando o deposto com este castigo o atrevimento de roubar as fazendas, que por suas terras conduzião os nossos pumbeiros.

Na província de Embaça avasallou aos dous potentados Molundo, e Quiangalla. Na de Encoge o dembo Quitexe, e em Benguella aos sovas Caxy, Pombabaculo, e Gambos.

            Levantou de seu pé o palácio da rezidencia dos governadores, que além de velho, e arruinado, era caza indigna para habitação de semelhantes pessoas, accrescentou-lhe os precizos commodos, e ficou a devida decência. Principiou a cidadella, que o governador D. João Manoel de Noronha fez de taipa, e deixou muita parte della feita de pedra, e cal, cuja obra completaria se governasse mais seis mezes.

He Antonio de Vasconcellos commendador na ordem de S. João de Jeruzalem, senhor de varias villas, e lugares da dita commenda, e filho de Theotonio de Soveral de Carvalho e Vasconcellos senhor do Couto de Vieiro do Reguengo de Vizeu no Algarve, das honras de Lamaçaes, e de D. Jozefa Maria de Vasconcellos.

publicado por Quimbanze às 23:51

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Sábado, 17 de Novembro de 2007

O DESPERTAR DOS COMBATENTES – Fotos com estórias em Angola – Joaquim Coelho – Clássica Editora, 2005

 

 

O livro que trazemos, hoje, a este blogue é um dos mais valiosos testemunhos sobre a guerra que não pode ficar no esquecimento. A descrição nua e crua do ambiente e dos dramas terríveis passados nas matas do norte de Angola obrigam-nos a uma reflexão sobre esta geração de homens que “sofreram e sobreviveram aos anos da guerra que lhes roubou parte dos sonhos da juventude”,  “que morreram como heróis inocentes" e ainda "os estropiados do corpo e da alma”.

De destacar, igualmente, o magnífico acervo fotográfico constituído por mais de 200 fotografias que constitui uma  bem documentada imagoteca da guerra colonial.

 

Na introdução ao livro o autor refere que «O DESPERTAR DOS COMBATENTES... é um testemunho com muitos indivíduos vivendo nos extremos entre o amor e o ódio. Os momentos de grande sofrimento, angústia e medo foram protagonizados por seres determinados e fortes; e, quando envolvidos na sociedade, eram os mais sentimentalistas, propensos ao amor e ao prazer. De quando em vez, também apareciam situações que desaguavam na violência ou na patetice desordenada. As contingências da guerra destruíram muitos sonhos e muitos homens bons tornaram-se incongruentes.
Pretendo, assim, dar o meu humilde contributo para que a generalidade dos Portugueses compreenda quão grandioso foi o esforço dos Combatentes nas guerras coloniais ou guerras do ultramar.”(…)

 

O livro retrata os anos passados pelo autor na guerra em Angola entre Abril de 61 a Março de 63.

Da forte motivação da defesa da pátria e dos portugueses massacrados o ânimo do autor vai decrescendo ao sentir-se carne para canhão numa guerra que só aproveita os interesses de grandes companhias nacionais e estrangeiras, estas jogando nos dois tabuleiros da guerra, para nunca perderem o acesso à exploração das matérias primas. E os que, na retaguarda, enriquecem instalados nos meandros sujos da guerra:

 

E quando olhamos à retaguarda

sentimos um aperto nos pulmões;

continua a desfilar na parada

um bando de ignóbeis tubarões.”

 

Quitexe, 1961

 

      “ QuitexeNestes dias de desgraça, a selva é deslumbrante e diabólica. Na encosta da vida, o caminho é cada vez mais íngreme e o corpo mal se arrasta pelos trilhos que nos conduzem ao encontro da morte. (…)

       A guerra caldeou as minhas ideias com os ingredientes da sabedoria que me faz amadurecer e sair do mundo dos ingénuos. Já começo a ficar farto de ouvir lições de patriotismo saloio, proferidas por aqueles senhores bem instalados nos gabinetes de Luanda e que desprezam os desgraçados que tiveram o azar de ser perfurados pelas balas inimigas. Tombaram nas terras dos Dembos e o seu sangue jamais será resgatado, porque estamos entregues à bicharada, que é o mesmo que dizer a uma cambada de indolentes pançudos. Bem pode o Fernando Farinha continuar a cantar o «Fado das Trincheiras», que o inimigo vai recebendo novas armas e com tiros cada vez mais certeiros. Tudo se passa em circuito fechado: os mesmos países que levam as matérias-primas de Angola vão fornecendo mais e melhores armas aos bandoleiros. Como quase tudo se repete, perdemos a esperança de vencer contra aqueles que nos atraiçoam. Enquanto os que morrem nunca são os mesmos.”

 

 

O relato das situações macabras sucede-se:

 

Vista de cima do terraço, a estrada mais parece um campo de extermínio, com manchas de sangue e cadáveres com os braços e pernas em posições dantescas, à mistura com as cabeças dos bailundos lambiscadas pelo mabecos e pelas hienas. O cheiro nauseabundo é insuportável! Até os olhos começam a lacrimejar. Ao fim de três dias, naquele ambiente de morte, o cheiro pestilento entranhava-se nas roupas e já mal se respirava.

 O soldado Marcelo já começa a temer os fantasmas:

- Meu sargento, aqueles olhos estão a dar cabo do meu pensamento. A cara do preto não deixa de me fitar! Está sempre a olhar para mim!”

 

A morte dos inocentes:

 

“Esta mágoa em noite de cacimbo

martela lentamente o pensamento

no instante em que ruge o avião

partindo o silêncio com estrondo...

as bombas vomitando o fogo

que a combustão do napalm espalha

nas aldeias de fantasmas famintos

que matam todas as esperanças

da gente pobre e franzinas crianças

que tentam fugir de qualquer jeito

- vergonha da pátria sem o proveito!”

 

E sempre o Quitexe:

 

     «A caminho de QUITEXE  - Quem tem sorte foge à morte.»

Naquela região, a simples função de encher água nos cantis obriga a manter vigilância apertada, porque os bandoleiros aparecem de qualquer lado. Eles são tantos que um simples descuido pode ser fatal.

     Tal como nos primeiros meses da guerra, esta região dos Dembos tem sido complicada para muitas das colunas que fazem o percurso da estrada do Úcua para Quibaxe e mais para Norte: Negage, Carmona, Quitexe e outras localidades do café.

     Os Voluntários da “Vanguarda Salazar” já têm uma dramática experiência das horas de repouso, e das surpresas que assustam nas imediações da estrada do Piri. Na estrada de Quitexe, foram surpreendidos por um grupo de mais de duzentos bandoleiros que, em menos de dez minutos, ceifaram a vida a sete voluntários. Embora a reacção pronta dizimasse parte dos atacantes, a marca da morte ficou bem vincada nos olhos dos voluntários.”

 

 

O descanso:

 

“Três dias de descanso trazem outro fulgor aos pára-quedistas que aproveitam para uma limpeza ao corpo e regeneração do espírito. Era certo que uns dias calmos na povoação do Quitexe com gente de todas as cores ajudam a recuperar forças e a fortalecer a moral das tropas. Ali vagueiam e preparam algumas galinhas no churrasco para dar outros sabores aos estômagos, depois de cinco dias a rações de combate e bolachas da Manutenção Militar.

     Ninguém ficou indiferente à chegada do novo chefe de posto, homem de aspecto rude e tez queimada por muitos anos sob os ares dos trópicos. Sente-se o semblante da população negra mais carregado, olhares desconfiados remetem-se a um recolhimento que não é habitual; até o tempo de recolha de alimentos nas lavras foi reduzido. E o chefe nem sequer convocou o feiticeiro Mamadu para a noite da festa da sua posse administrativa de Quitexe. Aproveitou a presença de vários oficiais e sargentos, que estão de passagem para outras missões, e expôs a sua ideia da psicossocial como solução para acabar com as rivalidades entre os bailundos e os bacongos, e destes com os brancos.

     Mas a moral da tropa despertava com a nova alvorada e os olhares logo se alinharam na ampla clareira que vai das palhotas até ao posto administrativo. Com o chefe de posto veio uma bela e jovem mulata!(...)”

 

Joaquim Coelho, natural de Penafiel, ingressou na Força Aérea e Tropas Especiais de Intervenção, tendo desempenhado diversas missões no Ultramar. Em 1961, foi destacado para Angola, onde, para além do cumprimento de serviço militar, colaborou como repórter fotográfico com o jornal Província de Angola e com a revista Notícia.

Depois de regressar a Portugal passados dois anos, foi admitido na Academia Militar e entre 1965-68 esteve novamente em missão em Moçambique.

Para ler mais sobre a obra de Joaquim Coelho entre aqui

publicado por Quimbanze às 10:43

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Domingo, 4 de Novembro de 2007

Sangue no Capim (Cenas da Guerra em Angola)- Reis Ventura -1962

O livro Sangue no Capim é constituído por uma série de narrativas nas quais, com algum artificialismo, Reis Ventura enaltece e glorifica a acção dos colonos e soldados portugueses, proclamando uma clara adesão à linha ideológica do governo de Salazar.

No prefácio o autor esclarece que a escolha do conto como forma narrativa foi a opção por uma “porta lícita da ficção à base do real” pela qual pretendeu esquivar-se “às exigências da exactidão histórica, quanto a pessoas, locais e circunstâncias”. Sem ter presenciado os factos, como Horácio Caio em "Os Dias de Desespero", Reis Ventura recria os quadros com base em histórias ouvidas e lidas em Luanda,de modo a que "com este singelo e confessado artifício, conseguir criar, à volta de certos lances mais expressivos, o ambiente emocional que os caracteriza como actos humanos e feitos portugueses"

 

Como é natural alguns dos episódios narrados são passados no Quitexe.

Transcrevemos, agora, aquele que nos permite cotejar os factos com o descrito nos textos de Felícia Cabrita no Expresso ou, mesmo com os relatos feito pelo próprio Vítor Poço ao programa da SIC efectuado na mesma altura.

 

 

Manhãs das catanas sangrentas

 

“Naquela roça das proximidades do QUITEXE, o patrão tinha-se levantado antes do nascer do sol, para arrumar umas contas na lojeca em que se abastecia o pessoal da sua fazenda e das vizinhas. Pouco depois a mulher e um filho de 14 anos levantaram-se também. As duas mocinhas uma de dez e outra de doze anos, continuavam a dormir, serenas e graciosas no seu quartito que era o melhor e o mais enfeitado da casa.

 

Por volta das seis e meia o branco abriu a porta da loja e ficou atrás do balcão, à espera dos habituais fregueses do copito matinal de vinho ou do cálice da rija.

            Minutos decorridos, chegaram cinco pretos grandalhões, no jeito de quem vai para a tonga.

            - Patrão, um copo de vinho1 – Pediu um dos do grupo. – Um copo grande…

 

O branco escolheu na prateleira um dos copos maiores, enxaguou-o na água da celha e curvou-se para o barril do palhete.

            E neste acto de se curvar, ofereceu aos bandidos a posição que eles previam e esperavam. O golpe foi tão fundo e certeiro no pescoço, que o breve e lancinante berro do assassinado esbarrou contra a lâmina fria da catana…

             Para além da porta de comunicação com a parte familiar da casa, a mulher apavorada por aquele grito, tinha tirado da mesa da cabeceira um velho revólver do marido e empunhava-o com mão trémula, prestes a desmaiar.

 

            -Dê-me o revólver, mãe! – disse-lhe o filho de catorze anos. – E, por amor de Deus, não se deixe ir abaixo! Tenha coragem e vá acordar as minhas irmãs!

 

            Contagiada pela decisão do filho, a pobre mulher obedeceu instintivamente. O moço dobrou a culatra do revólver e verificou que tinha as seis balas no tambor. Então abriu sem ruído a porta e, com uma serenidade terrível, abateu com cinco tiros seguidos, os cinco assassinos que antes de prosseguir a chacina, não tinham resistido à tentação de uma garrafa de aguardente…"

 Venha, mãe — chamou o moço para dentro, com os olhos rasos de água postos no cadáver do pai. — Não gritem! — acrescentou, quando a mãe e as irmãs acudiram e levaram as mãos à boca, horrorizadas. — Não gritem, que pode ser perigoso! Ajudem-me a transportar o pai para a carrinha! ...

Mudamente, a viúva e os órfãos transportaram o corpo para o carro e cobriram-no com um lençol. Depois, aquele rapazinho de 14 anos, a quem o pai deixava às vezes guiar a carrinha, sentou-se virilmente ao volante e, meio cego pelas lágrimas que teimavam em inundar-lhe os olhos, correu a avisar um tio que vivia noutra roça, a dezoito quilómetros de distância ...”

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REIS VENTURA  -  Ervedelo/Chaves, 1910 - Lisboa, 1992

Reis Ventura é o pseudónimo literário de Manuel Joaquim dos Reis Barroso. Tendo começado a sua vida pela Ordem de São Francisco, onde professou com o nome de Vasco Reis e recebeu ordens sacras, estudou Teologia em Espanha, tendo seguido depois para Moçambique como missionário. Ali abandonaria não só os franciscanos como as próprias ordens sacerdotais, tendo regressado a Lisboa onde estudou então na Escola Superior Colonial. Em 1938 seguiu para Angola, onde trabalhou primeiro como funcionário administrativo e, ultimamente, como empregado da companhia de petróleos daquela então colónia. Regressou a Portugal em 1975, tendo-se fixado em Lisboa. Estreou-se como poeta com o volume A Romaria, que em 1934 recebeu o "Prémio Antero de Quental" do Secretariado de Propaganda Nacional, ex-aequo com a Mensagem de Fernando Pessoa. Para além de continuar a cultivar a poesia, dedicou-se depois a escrever crónicas, contos e romances de temática colonial, pelo que recebeu alguns prémios da antiga Agência Geral das Colónias. Está representado nas antologias: Novos Contos d'África, de Garibaldino de Andrade e Leonel Cosme, 1962; Contos Portugueses do Ultramar, de Amândio César, 1969; O Corpo da Pátria, antologia poética sobre a guerra colonial, de Pinharanda Gomes, 1971; e Antologia do Conto Ultramarino, de Amândio César, 1972.

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in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Lisboa, 1997

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 Reis Ventura foi um dos escritores que integrou aquela que se pode classificar como a segunda fase da literatura colonial portuguesa de inspiração africana, no século XX. A primeira fase, representada por escritores como Henrique Galvão (1895-1970), Julião Quintinha (1885-1968) e Castro Soromenho (1910-1968), desenvolveu-se entre as décadas de 20 e 40 coincidindo predominantemente com a recuperação do conceito de império colonial, preconizado pelo Estado Novo. A segunda fase veio a coincidir com o início da autodeterminação dos países francófonos de África, já na década de 50, e com a sublevação nas colónias portuguesas, na década seguinte. Em Angola, esta fase cristalizou-se à volta do Grupo da Província, um conjunto de artistas e escritores que contribuíram para o Suplemento Literário do jornal "a província de Angola", logo a partir da década de 40.

Durante a década de 60, este grupo, apoiado tacitamente pelo governo e pela Agência Geral do Ultramar, veio a ser contestado, na sua literatura comprometida com  o regime, por escritores de oposição ao colonialismo e ao Salazarismo, como José Luandino Vieira.

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Em plena década de 60, devido à guerra, o compromisso ideológico de Reis Ventura para com o regime acentuou-se, vindo a sua literatura a ser fortemente condicionada por esse facto. A sua prosa  passou a reflectir aspectos panfletários e dogmáticos, características já anteriormente sugeridas na personagem Bolchevique de A Romaria, congregando o reconhecimento do regime e dos defensores do sistema colonial. Nesta transição perdeu-se, contudo, a simplicidade, a clareza e a atracção de uma prosa corrida que o autor desenvolvera nos anos 50. Assim, talvez as suas obras literariamente mais conseguidas tenham sido precisamente as dessa década, merecendo particular destaque os romances que constituem a trilogia Cenas da vida em Luanda – Quatro Contos por Mês (1955), Cidade Alta (1958?), Filha de Branco (1960), bem como o romance parcialmente autobiográfico Cafuso (1956).

in Blog da Rua Nove

publicado por Quimbanze às 13:43

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Domingo, 21 de Outubro de 2007

TU NÃO VISTE NADA EM ANGOLA, Francisco Marcelo Curto, Centelha, 1983

São muitos os ex-combatentes da guerra colonial que nos retratam as suas aventuras, os seus dramas, os seus medos, as suas impressões, as suas angústias vividas no teatro de guerra que passa, quase sempre pelo norte de Angola. Em forma de novelas, crónicas, contos ou simples diários vão-nos relatando as suas experiências vividas no auge da juventude. Muitos deles passaram pelo Quitexe pelo que é recorrente encontrarmos o nome desta vila nas suas memórias vertidas para o papel.
O livro que trazemos hoje, de Francisco Marcelo Curto, é um desses casos. “Tu não viste nada em Angola”, título parafraseado do poema de Manuel Alegre (Em Nambuangongo tu não viste nada/não viste nada nesse dia longo longo/a cabeça cortada/e a flor bombardeada/não tu não viste nada em Nambuangongo), é a descrição de uma campanha que começa em Junho de 61 com a chegada a Luanda e só termina dois anos depois em 63. As primeiras impressões em Luanda, depois a partida para o norte, a guerra cruel, como todas as guerras e já a percepção de que nada fazia sentido.
Nesta altura a guerra encontrava-se no auge naquela zona de Angola. O Quitexe era terra maldita. Não era com agrado que os soldados lá regressavam:

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      “Não digo nada. Já ando a dar ordens, os soldados resmungam, mal acabam de aquecer a canja da ração e de a comer e “vamos voltar ao Quitexe”. Tenho que esconder que também não estou de acordo. Dou a volta à parede – resto da casa em que os pretos comprariam a sua fuba, os panos, o sal, o açúcar. A malta está aborrecida com a volta ao Quitexe. E eu disfarço.” 

       O Quitexe retratado como terra de pó, tascas sujas e administrador vestido de branco

Antes de morrer

       As viaturas arrumam-se à saída do Quitexe.
      Outra vez a morte, desta vez em promessa. “Na semana passada mataram um soldado a sete quilómetros”, diz-nos o tasqueiro.
      As casas sujas, com o pó a trepar pelas paredes, a garrafa de cerveja fica com lama quando a ponho em cima do balcão. O Sol é uma pata lá fora. Vou à frente desta vez. Uma preta com o filho pegado às costas pelos panos compra peixe seco no extremo do balcão. A loja sebenta. “Levo pró caminho…”, diz o Quatro Quinze. É o nome dele. Um minhoto com cara de vaca, bonacheirão, mostra-me as garrafas de cerveja, os olhos dentro de um círculo de pó. Sinto-me mal. “O pior é a vinte quilómetros. Uma ravina lixada, toda coberta de mata…”, não ouço o tasqueiro, vou-me daqui. Os criados negros carregam - ou descarregam? – café para um armazém. O alfaiate no alpendre toca a máquina, diligente. O Fernando desaparece no capim com uma preta. Os pés pesam-me. Sento o corpo, espero o resto da coluna. O Sorna especa-se à minha frente, bebe cerveja como todos fazem. “Então, chateado?”, pergunta. Levanto os olhos e sorrio, mal, sei bem que me é impossível. O tipo aponta com o queixo a estrada e acaba por ficar a olhar, “Deixe lá, não vai haver nada!”, sempre a pensar que para ele não vai haver nada.(…)
      Tudo muito quieto, que horas são? O sol queima, isso é que é certo. Dois brancos olham para os militares por ali. Reis da terra, mas inquietos.
      O resto das viaturas vai aparecendo. O Administrador fala com um cipaio, todo vestido de branco, ventrudo, pernas abertas, no alpendre da sua casa. “Porque é que ele estará vestido de branco?” Caminho para o jeep e espreito a estrada mergulhada na mata. Um vento misturado com sol atinge-me quando atravesso a rua.”

À medida que avançam os combates as consciências vão-se inquietando e coloca-se em causa o sentido desta guerra inglória:


      
“No dia seguinte, bem de manhã, o Cap e o Marques vão para um lado com o grupo. Eu vou para o outro. O guia é um voluntário. Caminhamos duas horas por carreiros tortuosos, sempre a subir à procura da sanzala, sempre nas elevações. Às nove da manhã, uma clareira, bananas, feijoeiros, sinais frescos “deles”. De repente, na encosta em frente, uns vultos negros e logo duas, três, seis rajadas. Os vultos mexem-se, fogem, são “eles” enfim, “eles que os soldados nunca viram, “eles”, os odiados negros inimigos. Faço parar o fogo. Vamos ao outro lado. Pela orla da mata, tentar apanhar alguém.
De baixo de um tronco, gemidos e um vulto negro. De baixo de outro uma mulher, farrapos cinzentos e sujos, e uma miudita que tenta escapar e é logo agarrada. No tronco dos gemidos o voluntário, com um medo que se lhe vê no corpo, dispara duas vezes a mauser. Os gemidos calam-se. Puxámos o vulto. É uma rapariga de nove ou dez anos. Arranco a arma ao voluntário. Culpo-me e esbracejo. A morte fica ali. O maqueiro faz um penso no tornozelo da mulher, carregamo-la na maca, com protestos dos soldados. E a miudita que parece ser sua filha.
No dia seguinte regressamos. Agora a cena é de raiva e culpa, revolta, àquela gente que de manhã plantava mandioca e não esperava os tiros. São aqueles os inimigos? A miudita vive connosco até mais ver. Os soldados tratam-na como a filha que têm ou querem vir a ter. A mãe (?) está internada no hospital de Luanda. Vai ser interrogada. Deve ser um prisioneiro valioso. O que se passou é fundamental para mim. “Não teve culpa, meu alferes”, diz-me o Fernando. E não tive? Podia ter evitado a morte desnecessária? Claro que podia. Não importa saber isso agora. O que importa é a gratuitidade de tudo isto.

      Daqui a poucos dias o meu filho distante vai fazer três anos. Também ele pode ser morto enquanto brinca no quintal, ao pé da figueira? Morto de manhã enquanto o pai mata por aqui? Também onde ele está o perigo existe? Ou lá não há guerra?
      A minha mãe diz: “São coisas que acontecem. Ninguém é responsável e tu muito menos”. Se isto fosse bastante!”

 

         Francisco Marcelo Curto (1937-2001), advogado, professor universitário de Direito do Trabalho foi um opositor ao regime ditatorial de Salazar e Marcello Caetano e um dos fundadores do Partido Socialista, em 1973, na Alemanha. Participou activamente na luta antifascista, tendo intervindo na campanha eleitoral para a Assembleia Nacional em 1969, integrado na CDE (Comissão Democrática Eleitoral), e na preparação e nos trabalhos do III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro, em 1973.
Fez parte do Secretariado Nacional do Partido Socialista, antes e depois do Congresso de Dezembro de 1974, tendo ainda liderado nos anos 80 a tendência «Esquerda Laboral» no interior do PS.
Entre os anos 60 e 70 colaborou com vários sindicatos nacionais, tendo estado na fundação da Intersindical.
Foi deputado entre 1975 e 1987 e ocupou entre 1976 e 1977 o cargo de ministro do Trabalho no I Governo Constitucional.


publicado por Quimbanze às 15:29

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Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

angola os dias do desespero - Horácio Caio, 1961

 
      É talvez o livro mais difundido sobre os acontecimentos de 61, em Angola, com, pelo menos, 20 edições. O seu sucesso deve-se sobretudo ao acervo fotográfico com dezenas de fotografias, muitas delas de pessoas barbaramente assassinadas, nomeadamente na zona do Quitexe e na própria povoação. Apesar de já as termos visto difundidas na net, não as publicaremos por respeito pelos mortos e sua famílias.
 
O livro inicia-se com o relato da chegada dos primeiros refugiados a Luanda:
 
 
“Os primeiros refugiados vêm do Toto e Negage. Outros chegam de Quitexe(1), Quibaxe, Cuimba, Mavoio, Camabatela, Nambuangongo e Nova Caipemba. Vou tomando nota dos nomes: (…) Celestino Guerra Pereira, outro velho por cujos queixos corre uma barbicha rala e grandes lágrimas e que me fala, soluçando, nos companheiros que lá deixou: Guilhermino Pereira, António da Rocha e mulher e filhos; (…) Maria Rosa Soares, que descreve os pormenores da chacina do Quitexe e me fala da acção do Dr. Almeida Santos que, de arma na mão, persegue os facínoras nas ruas da povoação; uma mulher ferida na mão direita à catanada, quando lutou com um negro que pretendia matá-la, e que chora agora, convulsivamente, ao lembrar que contou 26 mortos no Quitexe e que junto de si foi morta uma criança de 8 anos. (…)
 
Ele, 80 anos; ela 75; quarenta e cinco vividos no Quitexe. Cabelos brancos sob o chapéu e o lenço negro a cobri-los. O homem solene, a mulher com um grande braçado de flores que ia levar aos santos da igreja. Mortos assim, às 8 e 30 de ontem no Quitexe.
Não consegui saber-lhes os nomes(2). Mas registo a serena silhueta dos velhos, sobraçando flores que levaram ao próprio enterro.”
 
Depois inicia a descrição da sua viagem de avião ao Norte, começando pelo Quitexe o que nos parece inverosímil porque nesta data não havia qualquer pista para aterragem de aviões ou avionetas nesta povoação. Não seria possível, por isso, aterrar e voltar a levantar voo a caminho do Ambriz. Homenagem à gente branca do Quitexe ou tentativa de apresentar as fotografias dos mortos no Quitexe, sem indicação do autor, como suas?
 
“Sobrevoamos o Quitexe, Nambuangongo e o Ambriz. Dezoito de Março, sábado. Do ar, apenas parte da extensão da tragédia. Lá em baixo não podemos distinguir senão as depredações cometidas contra as casas e os acampamentos das fazendas. Apenas pomos pé em terra, o espectáculo modifica-se e a metamorfose repelente da vida é formal, súbita, dolorosa.
Quitexe, quatro horas da tarde, uma rua e as matas sufocantes a abafá-la. O cheiro dos mortos, a presença dos mortos a apodrecer, a náusea dos vivos. Imagem do crime. Pulsação apenas. Sangue, sangue, sangue.
A terrifica face das casas esventradas, os cadáveres das crianças e das mulheres.
Ponho as mãos na cabeça, fecho os olhos. Não quero ver. Mas conservo a primeira imagem na mente. E sombras e fantasmas. E o ódio. O ódio que sente quem faz a guerra e reconhece que o inimigo não é humano. “ Isto não é uma guerra” – penso. “Desumano demais para ser uma guerra”.
Encontramo-nos em frente da Administração, cujos vidros estão partidos e as paredes ensanguentadas. A nosso lado, de olhos parados mas muito vermelhos, Bernardo de Oliveira e Emídio Martins. Não comem, nem bebem há três dias. As suas mãos estão feridas dos punhos e das culatras das catanas e armas.
         “Raios partam a vida” – disse um. “Raios partam os negros” concluiu depois.
“Olhem o que fizeram” – acrescentou o outro. – “Filhos da puta”, proferiu entre dentes cerrados e raivosos.
         E estávamos nisto. Nós, sem conseguirmos uma decisão. Eles que foram decididos, agora mais abatidos pela nossa presença. Com a floresta à ilharga da rua principal, talvez trinta homens, sem armas quase, esperando não sei o quê, sem coragem para enterrar os mortos, como se eles fossem um catalizador necessário para os heróicos feitos que eu depois veria praticar a estes bravos colonos.
          A lama da rua salpicou-nos quando ouvimos o roncar do jipe. Saltou um homem decidido. Chama-se Orlando. Orlando Traila. Chega do Zalala. Traz os olhos de espanto. Olhos terríveis. Vermelhos também.
         “Todos mortos no Zalala. Trago aqui alguns” – abateu sobre nós.
         Zalala é a fazenda do Ricardo Gaspar. Era a melhor de todo o Congo. Agora não é senão um campo de mortos e depredações. Tudo destruído. Nem um ultimo sopro de vida. A ferocidade dos facínoras chegou ao ponto de degolar as crianças. E as mulheres, despidas, tinham um pau aguçado espetado no sexo.
         (…)
         Aqui estamos. Homens impotentes, no coração do Congo construído com o suor destes mesmos homens. Ensopado com o sangue de suas mulheres e filhos.
         Não há militares, não há tropa. Ninguém ousa lembrar isto. Mas todos sabemos que, se ficarem aqui mais uma noite, estes homens poderão estar mortos amanhã.
         Ao sentar-me no avião, a caminho de Ambriz, pensei em como são corajosos e abnegados. E em como ficam desprotegidos. E que estão a enterrar os seus mortos. E que ficarão vigilantes sobre as suas sepulturas, de armas na mão, até romper de novo a madrugada.
         Não esquecerei mais os seus rostos sujos mas ternos.”
 
(1)   Nota do autor do blogue -O primeiro avião a transportar refugiados do Quitexe saiu do Uíge no dia16 de Março e foi alugado por particulares pois o Estado, inicialmente, nem esse transporte assegurou (Ver Quitexe 61)
 
     (2) Nota do autor do blogue – Trata-se do casal Guerra – ver aqui)

 Mais adiante retoma o tema do abandono a que estão votados estes valentes homens, sem exército, sem armas, sem qualquer apoio:

 

“Trago os olhos pisados das imagens da morte. Não quero mais repetir o dia de ontem e os que estão para lá do dia de ontem. Não quero mais ver morrer estes meus bravos companheiros. E se eles morrerem, os heróis do Quitexe que ontem eu vi despertos às quatro da madrugada, sentados no pavimento do edifício da Administração, de dedos nos gatilhos e os olhos raiados de sangue das vigílias (…) – então quero também lutar com eles. E morrer com eles, que me parece ser neste momento o seu destino.(…) E como nos vemos abandonados. Como é esmagadora e maior que as nossas forças esta solidão. E porque não vêm esses soldados? E porque não chega o auxílio que deve a Angola toda a Metrópole?”

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Horácio Caio, nascido em Moçamedes em 1928 cresceu e estudou, no entanto, em Portugal. Em Janeiro de 61 partiu para Angola integrado numa equipe de cinema encarregue da produção de documentários. Foi apanhado pelos acontecimentos de Março de 61 e assim pode dar testemunho e notícia (sempre condicionada à censura vigente) da tragédia que se abatera sobre os brancos em Angola.

Embora a sua empatia com o regime de Salazar seja total é possível deslumbrar aqui e ali críticas quer à forma como os seus textos eram censurados (não culpando o regime, mas um ou outro serventuário), quer à política de abandono das colónias seguida até então pela ditadura. No entanto não deixa de remeter todas as culpas da revolta para os inimigos externos de Portugal, nomeadamente os novos países africanos e para as comunidades religiosas protestantes e tocoístas. Nem uma palavra sobre os desmandos das autoridades administrativas coloniais que criaram o terreno fértil para a sementeira de ódios recalcados. Nota-se, antes, uma velada apologia ou, pelo menos, justificação para a vingança e o ajuste de contas que se seguiu:

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 “O desespero mina. Mina todas as pessoas. Há tiros todas as noites nos musseques de Luanda. A cidade já não desperta porque está desperta. Grupos de terroristas escondem-se nos bairros indígenas. Cada negro é um suspeito. Muitos são criminosos.”

publicado por Quimbanze às 21:25

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Domingo, 17 de Junho de 2007

NAMBUANGONGO

NAMBUANGONGO - Miranda, João Bernardo - Publicações Dom Quixote-1998

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    Obra literária que podemos classificar como romance histórico ou, com diz o autor: “Nambuangongo” não é uma obra literária na acepção clássica do termo nem pretende ser um livro de história. Tenta apenas interpretar um passado recente através de uma simbiose de palavras entre ficção realidade.

Neste romance vivido na região dos Dembos é relatada a luta pela independência desde os tempos do 4 de Fevereiro de 61, até aos nossos dias, abarcando o 15 de Março e, também, as contradições das opções racistas da UPA e, em especial a directiva “mona-wa-ionka, ionka uê”-  filho de cobra também é cobra, que levou à matança de muitas crianças mestiças:

 

“ – Como sabes Massanga, a guerra contra os brancos já começou. Em Kibaxe, lá nos Ndembos, em Nambuangongo, no Kitexi e em muitos sítios aí em cima, mataram todos os brancos. Outros fugiram para Luanda. O Mbuta Muntu, o grande chefe que está a dirigir tudo isso, mandou também matar todos os filhos dos brancos com pretas. Por isso é que o teu tio Pianga devia matar-te. A ordem de Mbuta Muntu diz que os filhos dos brancos com pretas devem ser mortos pelos seus tios. (…)

 

Depois o revogar desta directiva:

 

“ O nosso querido chefe supremo Tata Holden determina para que doravante jamais se molestem os mestiços nem os assimilados. Os mestiços são nossos sobrinhos, são nossos filhos. Os assimilados são nossos irmãos. O nosso querido chefe supremo nunca ordenou que se matassem os nossos sobrinhos. Nunca mandou prender ou matar os nossos irmãos assimilados. Tudo o que aconteceu foi obra dos delegados, traidores da pátria.”

 

Entretanto dá-se a implantação do MPLA na zona com a criação da 1ª Região Politico-militar e a descrição das extremas dificuldades de 13 anos de vida nas matas, acossados pelas tropas portuguesas e impedidos, pela acção da FNLA, de receberem mantimentos e reforços.

Surge, então o 25 de Abril de 74 e, com ele, a Independência e a 2ª guerra de libertação nacional, agora contra a FNLA, os Zairenses e os Sul Africanos. Mas foi esta guerra, muito mais abrangente e terrífica, pelos meios bélicos utilizados, que acaba por subalternizar os heróis libertadores da 1ª guerra. Nesta 2ª guerra assumiram papel de relevo os antigos oficiais e sub-oficiais angolanos do antigo exército português que colocaram o seu saber e capacidade combativa a favor da pátria. Para muitos bastou, depois a passagem pelas academias de Moscovo e outros “países amigos” para serem graduados em generais famosos.

O descrédito no avanço da revolução tomou conta dos antigos heróis que sentiam a necessidade de "derrubar o muro erguido pela pequena burguesia oportunista em torno do camarada Presidente, que o impediam de se aperceber das queixas e lamentações do povo". É o 27 de Maio de 77 e a terrível repressão que se seguiu, que afectou de sobremaneira os heróis da 1ª Região Politico-militar.

 

“ Enquanto isso, o comboio da revolução foi rasgando a densa nuvem preta que ensombrou o país. Prosseguiu a sua marcha que se julgava inexorável. Anos depois do trajecto o comboio parou por avaria num apeadeiro, e todos os ocupantes saídos incólumes de temporal de Maio desertaram-no. Apanharam um outro que vinha em sentido contrário, do Planeta Nova Era:

- Estão a dizer que cabemos neste comboio?!

- Sim, meu filho, neste, aqui, cabemos todos…

- Mas todos quem?

- Todos nós, os filhos desta terra que se chama Angola.

- Também os lacaios do imperialismo ou fantoches, os fraccionistas, etc…viajarão connosco?

- Meu filho, eu já não me lembrava desses epítetos. Olhe para os meus cabelos brancos. Eu já vivi tanta coisa desde que começamos. Por tudo quanto já passamos o melhor é amnistiarmo-nos mutuamente. Esquecer…”

 

 

 

João Bernardo de Miranda nasceu em Caxiti-Dande em 1952. Jornalista e licenciado em direito. Membro do Comité Central do MPLA ocupou vários cargos governamentais e é, actualmente, Ministro das Relações Exteriores de Angola.

 

publicado por Quimbanze às 17:26

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